
26/06/2009
21/06/2009
PSSST!
Vossa eminência chamou?
Chegou ao meu conhecimento, através de uma amável carta, uma sugestão imperdível.
Num jornal televisivo, uma legenda (daquelas irritantezinhas que, qual carreiro de formigas, desfilam por baixo das mãos do jornalista e me fazem sentir que tenho de optar entre ler, ver ou ouvir as notícias) dizia: “está uma reunião eminente para hoje”. Não sei qual seria o tema, mas a reunião devia ser importantíssima. O que até mais me espantou foi saber-se tal coisa de antemão. Ora, se os profissionais do jornalismo conseguem adivinhar isso, porque não nos fazem chegar mais cedinho a chave do Euromilhões, a data exacta do fim da crise ou o próximo valor da inflação? Se calhar é porque não há sondagens para tais futilidades.
Iminente e eminente são adjectivos que muitas vezes se confundem, pela semelhança de grafia. O que está quase a acontecer, o que está próximo, é iminente; aquilo que denota superioridade, excelência, o que é alto, então é eminente.
Se tiver dificuldade em distinguir, lembre-se: se é eminente é porque já está provado sê-lo e não há iminência que se lhe aplique, pois essa fase já passou; se for cardeal ou outro alto dignitário da Igreja, é um “vossa eminência”; e se é iminente, pode ser que venha um dia a ser eminente, só se percebe no fim. Como nos jogos de futebol.
Uma palavra de aviso, porque isto há sempre umas armadilhas pelo caminho: se se tratar de uma eminência parda é porque a eminência está disfarçada e apenas os mais observadores reconhecerão o verdadeiro poder. Esses serão os iluminados, e muito provavelmente iminentemente eminentes.
Publicado no Açoriano Oriental a 21 Junho 09
18/06/2009
Adivinhem lá!
14/06/2009
PSSST!
Você tem uma «Mensagem»?
Por este dias, ando muito influenciada pela «Mensagem». A de Fernando Pessoa, apesar de não desprezar outras mensagens, desde que não sejam do além… ou de telemarketing, a vender um novo e infinitamente melhor produto.
Não sei se por influência do 10 de Junho — a repetição do mesmo modelo de cerimónias há anos sem fim tanto pode ser um conforto (Portugal idem idem) como um desespero (Portugal idem idem), tudo depende do ponto de vista e o de Pessoa também conta: “Nem rei nem lei, nem paz nem guerra, / Define com perfil e ser / Este fulgor baço da terra / Que é Portugal a entristecer”; se pelas tiradas lugar-comum no programa “As 7 Maravilhas de Portugal pelo Mundo” em que, apesar da louvável e apelativa iniciativa, o texto dos apresentadores era tão bafiento! (ainda citando: “Outros haverão de ter / O que houvermos de perder.”); se por causa das Europeias — ainda não me recompus da terrível taxa de abstenção —, que tanta indiferença mereceram dos portugueses (apesar de Pessoa ter dito que “A Europa jaz, posta nos cotovelos / De Oriente a Ocidente jaz, fitando / […] O rosto com que fita é Portugal”); se por via dos humedecidos nevoeiros (“Ó Portugal, hoje és nevoeiro…”) que ensombraram estas ilhas durante uns dias — se prometedores do Encoberto, não sei, mas já me parece um bocadinho tarde para tal; enfim, só sei que a única coisinha que nestes dias me alegrou foi saber que Barack Obama já ouviu falar de Camões, conhece o nome da obra e sabe em que século se situa. Nada mal: muito melhor que os inquéritos de rua aos portugueses.
“Senhor, falta cumprir-se Portugal! / […] É a Hora!”.
Publicado no Açoriano Oriental a 14 Junho 09
11/06/2009
É a hora!
09/06/2009
Teoria da Conspiração Informática
07/06/2009
PSSST!

n(v)ote bem
É notável o modo como conseguimos dar a volta às palavras. Com tanta publicidade, propaganda, marketing e forças de vendas, por força de tanta exposição, tanta manobra e demagogia, a língua portuguesa por vezes é de tal forma esfacelada que… pensando bem… será notável ou notório?
Creio que, nos dias que correm, um conceito já se confunde com o outro. Mas não deveria. Notável é o que, para além de ser digno de atenção, é ilustre, é distinto ou extraordinário. Mais: pode referir-se a algo ou alguém possuidor de características excepcionais. Notório significa que é claro, conhecido de um vasto público, que se evidencia de forma aberta. Talvez por influência da língua inglesa (onde «notorious» é claramente negativo e muito próximo de infame) e pela ténue diferença que existe entre cada uma, tenho tendência a desconfiar dessas palavras. E onde muitas vezes se cataloga de notável, vejo notório. Claramente visto. Notável como o cabelo de fulana, da noite para o dia, cresceu 20 cm e clareou tanto! Notável como a filha de sicrana já está tão crescidinha que pode posar para revistas masculinas! Notável como fulano dominou a entrevista e arrasou com a jornalista (não estou a falar de algum caso concreto, nem por sombras…)! Serão notáveis, sim, chamam a atenção, não pela notabilidade mas pela notoriedade. Serão dignos de nota? Muito provavelmente. Mas nota como em notação. Pontuação. E baixinha.
Será notável que hoje votemos todos. É para isso que serve uma eleição: para escolhermos. Votemos. Para que a abstenção não se torne em mais um episódio notório da nossa democracia.
Publicado no Açoriano Oriental a 7 Junho 09
02/06/2009
PSSST!

Há modos e há tempos. Falo de verbos, claro, apesar de que esta frasezinha de início até poderia ser aplicada a muitas circunstâncias de vida.
O modo exprime as diferentes atitudes do falante em relação ao facto enunciado — certeza, incerteza, ordem, hipótese; o tempo indica a altura em que esse facto acontece. Nos modos existem o indicativo, o conjuntivo e o imperativo; nos tempos, essencialmente, o passado, o presente e o futuro.
Esta semana, li, numa notícia, uma tal salgalhada de modos verbais que até tive de colocar os óculos: onde deveria estar o indicativo (usado para relatar acções reais) estava o conjuntivo — modo reservado para dúvidas, eventualidades ou hipóteses. E digo mesmo reservado, no sentido em que deve usar-se com reservas, pois se quiser falar de algo que acontece, tem o hábito de acontecer ou vai acontecer muito proximamente… deve usar o indicativo. Concretizando: «eles entram todos os dias às 10». Indicativo. Habitual e factual. Agora experimente com o conjuntivo: «eles entrem todos os dias às 10». Não. De todo. Mas estaria certo se dissesse: «eles que entrem todos os dias às 10». Conjuntivo. Porque está a conjecturar, não a relatar.
Como fazer a distinção? Analise bem qual a atitude: é uma narração, uma suposição ou uma ordem? Está a contar, a desejar ou a comandar? Quer descrever, duvidar ou… pôr e dispor? Se é uma notícia, calculo que seja uma narração. Portanto, supõe-se menos e indica-se mais.
Termino a autoflagelar-me com a errata da semana passada: era ininteligível e não “inteligível”. As minhas desculpas. Malvado joelho!
Publicado no Açoriano Oriental a 31 Maio 09
29/05/2009
Falta cumprir-se Portugal

Possessio maris.
I. O INFANTE
Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!
24/05/2009
PSSST!

Macarronismos…
Aqui há dias senti-me muito mediterrânica. É uma sensação fantástica, claro, mas descabida para quem vive nos Açores. Tudo isto porque na rádio falaram na Macarronésia. Rigorrosamente na Macarronésia. Que deve ser a terra onde se produz o macarrão, lá para os lados de Itália, portanto mais perto do Mediterrâneo. Daí a sensação.
E quem fica na Macarronésia? Os Açorres, a Madeirra, as Canárrias e Cabo Verrde (olhem lá o jeito que deu para esta crónica o facto de todos estes arquipélagos terem um R no nome!). Altamente macarrónico!
A propósito: macarrão tanto pode vir de «makron», de «makaria», estas de origem grega, ou do italiano «macchare»; para ajudar, macarrão também pode ser um pequeno moitão de ferro. Macarrónico significa burlesco ou ininteligível*.
Para além de um normalíssimo tique de fala ou de se ser de Setúbal, estamos a falar é da Macaronésia — conjunto de arquipélagos com perfil biogeográfico semelhante, localizado no Atlântico norte. Macaronésia é um vocábulo que provem do grego e conjuga as noções de «makáron» (feliz, afortunado) e de «nesoi» (ilhas); por isso, os antigos geógrafos consideravam como abençoadas as ilhas que ficavam a oeste do estreito de Gibraltar.
E por falar em Atlântico, e num exercício de puro idílio geográfico, contei pelo menos 90 ilhas no lado norte e 16 no lado sul. Portanto, dizermos que somos ilhas do Atlântico também não é lá grande diferenciação.
Digamos Açores, Azores ou Azoren; leiamos à francesa ou japonesa; até podemos dizer Açorres… não importa, desde que sejamos sempre nós!
Publicado no Açoriano Oriental a 24 Maio 09
*no jornal foi publicada a palavra "inteligível" quando o que eu queria era dizer o contrário; é o resultado de fazer as coisas à pressa; as minhas desculpas.
17/05/2009
PSSST!

Oremos…
Não é de propósito, este título hoje, juro que não é. Mas esta semana apercebi-me da diferença que faz um H.
Para começar, há (com H, pois claro, porque é do verbo haver; não é nem primo afastado do “à”, a contracção da preposição A com o artigo A) a polémica do H-que-cai-ou-não-cai com o acordo ortográfico. Parece que não cai; pelo menos se não for empurrado. Em português do Brasil, escreve-se “úmido”, mas por uma questão de etimologia — é defendida a tese de que a palavra deriva do latim «umidus»; em Portugal, seguimos a variante «humidus», igualmente adoptada pelas línguas inglesa, francesa e castelhana. Na Europa, é húmido com H.
Mas adiante. Isto nem sequer é que me traz aqui hoje (H-que-não-cai), pois, em termos de humidade, mesmo que caísse, o significado da palavra não mudaria. O que mudaria seria, por exemplo, se caísse o H de hora. Confundir-se-ia com ORA do verbo orar (que significa rezar, discursar ou pedir; ora e perora estão no presente do indicativo ou no imperativo, e usam-se tanto em novos e grandiosos templos como em encontros políticos); com ORA, conjunção equivalente a “ademais”; com ORA, interjeição de desprezo; com ORA, parte da locução ora…ora; e com ORA, de agora, como na expressão “por ora”. E esta veio mesmo a calhar: “por ora” significa “por enquanto”. Mas imagine que coloca aí um H — fica “por hora”. Já é outra história, já implica negociações, impostos, papelada e remunerações.
Donde concluo que se deve ter muito cuidado com o local onde pomos os nossos Hs. Dignifiquemo-los. Afinal sempre fazem parte de palavras como humano ou habitação. Não seja hebetante!
Publicado no Açoriano Oriental a 17 Maio 09
10/05/2009
PSSST!
Dias difíceis
Alguns conselhos de saúde são realmente pouco saudáveis. Outro dia, comentei que me doía a garganta e, prontamente, uma criatura adiantou-se e aconselhou-me que “bocejasse com água morna e sal grosso” pois era muito bom! Ora, eu já acho extremamente difícil controlar um bocejo normal, quanto mais um regado por água salgada. E apesar do oposto não ter acontecido, posso imaginar alguém a dizer que bochechou imenso durante a missa. A confusão entre bocejar e bochechar poderá acontecer por duas razões: têm sonoridade semelhante; ocorrem na mesma área do corpo. Mas não são o mesmo: bocejar é sinal de sono ou enfado; e bochechar, bem, tem a ver com higiene oral — você enche as bochechas com um líquido e depois faz movimentos de agitação. Na verdade, eu acho que para a garganta o melhor seria gargarejar, mas pronto, isto sou eu a ser picuinhas….
Outra confusão hilariante ocorre entre mugir e mungir. Um deles é sinónimo de ordenhar. Qual? Pois… Bem sei que são extremamente semelhantes e que, para complicar, ambos se referem a vacas. Quem muge e quem munge? Muge a vaca (mugir é o berro da vaca; em termos figurativos, significa bramir, rugir) e munge o lavrador (mungir é ordenhar; pode também significar explorar ou despejar). Se a vaca muge enquanto é mungida, isso já é outra história e cada um sabe de si.
Já agora acrescento que limiar e linear são coisas diferentes — limiar é a soleira da porta ou o começo de algo; linear é porque tem linhas ou é alongado. Donde concluo que o “linear da realidade” de que (erradamente) ouço falar deve ser uma coisa rectilínea e organizadíssima… Linearmente no limiar!
Publicado no Açoriano Oriental a 10 Maio 09
03/05/2009
PSSST!

O que é que você sabe sobre particípios passados? Que tem a dizer sobre o uso dos mesmos? Vamos ver cada palavra: «particípio» é porque participa em alguma coisa; «passado» porque já foi, já acabou e encontra-se… morto, matado, morrido e enterrado.
Na verdade, o particípio passado é uma forma nominal que participa da natureza do verbo, funciona como um adjectivo (diz da condição de…) e se conjuga com um verbo auxiliar.
E aí é que está o busílis. É que, dependendo do auxiliar, pode haver diferentes particípios. São os duplos — não os do cinema, hercúleos sósias do herói da fita; não aquelas criaturas que sofrem de camaleonismo social e político; nem sequer falo de algo que seja duas vezes maior…
Regra geral (e, como sempre, há excepções), o particípio regular (a forma mais longa) conjuga-se com os verbos ter/haver e o irregular (o modelo compacto) com ser/estar. Por isso se podem usar os vocábulos morto, matado e morrido — mas veja lá como! Alguém pode estar morto, mas ter matado ou morrido. Fulano de tal foi pago para calar o bico, mas alguém tinha pagado para tal. O facto de se ter salvado a reputação de sicrano não significa que esteja realmente salvo. Enfim, não faltam exemplos. Gosto especialmente quando o particípio passado irregular, o da versão “fast-food”, se confunde com um adjectivo: é o caso de dissoluto. Como é irregular, alinha-se com ser/estar: a assembleia foi dissoluta; mas, por causa das confusões, deve fazer-se a tal excepção e preferir… dissolvida; assim poupa o dissoluto para casos em que a dissolução seja de carácter. Deixe estar que não faltam oportunidades!
27/04/2009
PSSST!

Esta semana pensei muito no feminino. No género, quero eu dizer, das palavras. E se calhar no feminino em geral, que os tempos andam propícios…
Há aquelas palavras que são do género feminino mas que, apesar disso e de já o serem há uma data de anos, são pouco reconhecidas. Que género têm vocábulos como diabetes, síndroma ou testemunha? Feminino. Sempre.
Depois há os vocábulos que são sempre do género masculino, como cônjuge (não importa se você é a mulher ou homem, é sempre “o” cônjuge; e lê-se cônjuge e não conjugue, mesmo que você e o seu cônjuge se conjuguem muito bem …) ou grama (como em “o” quilograma, decigrama ou miligrama).
Há o caso da palavra que pode ter dois géneros, sendo prevalente um deles: personagem. Ainda que as gramáticas e os dicionários reconheçam os dois géneros, a preferência em termos de correcção vai para o feminino. E embora se trate de uma questão linguística, está igualmente de acordo com os tempos.
São também femininas palavras como justiça, igualdade, felicidade, discriminação e — uma expressão extraordinária que ouvi por estes dias — a ordem natural das coisas. Pois claro, nada mais natural do que a ordem das coisas, sem dúvida nada será tão feminino como a naturalidade das coisas e (apesar de ter agora algumas dúvidas e pouco espaço para reflectir no assunto) pouco haverá neste mundo que seja tão ordeiro como as coisas naturais.
Eu, ilhoa, quando for primeira-ministra ou juíza ou presidenta (não incluo aqui as hipóteses monja, giganta ou hóspeda, que não dão jeito para a questão…) decretarei imensas coisas úteis e naturais, incluindo que nunca mais se confundam os géneros das palavras.
E liberdade também é feminina.
21/04/2009
XKCD: Webcomic Strips + Stick Figures + Math and Romance
19/04/2009
PSSST!

Eu sei que vivemos numa sociedade consumista. Crise ou não crise, adquirimos bens e usamos serviços. Mas, que diacho, não ponham na minha posse coisas que não me pertencem. Olhem lá o sigilo bancário… ou a falta dele. A propósito, como li num blogue esta semana, quem vai controlar o assunto? E, pergunto eu, quem vai controlar quem controla?
Voltando à posse. A culpa é da supremacia do «seu». Ouço e leio por todo o lado que isto é seu, aqueloutra é sua; nunca é dele ou dela, é sempre seu. Ora bem, se sou eu o destinatário da mensagem, presumo que é meu. Não é. O meu, declaro no IRS. Por exemplo, uma loja ou um restaurante anunciam — dirigindo-se a nós directamente — que “os seus preços” são isto ou aquilo. Não são os meus preços, de certeza absoluta. São os preços deles; se fossem os meus seriam bem diferentes!
O uso do pronome possessivo «seu» para referir o que é possuído por terceira pessoa está correcto. Mas também pode servir para referir o que é de segunda pessoa (em presença e se tratada com cerimónia). Portanto, o erro está no abuso. Assim, para diferenciar, nesses casos deve preferir-se o pronome «dele» e devidas flexões. Se eu estiver a falar com alguém a quem trato por «você» e se surgir outro referente na conversa, o uso de «seu» pode criar confusão: vai ficar sempre a dúvida de quem possui o quê. E, se calhar, quando e onde! Livra!
Diálogo tirado à pressa do chapéu:
— Olá, como está? Liguei ontem para a sua filha, mas o seu telemóvel estava desligado.
— O meu telemóvel?
— Não, o da sua filha…
O ideal teria sido «o telemóvel dela». Por isso, parem de colocar em meu nome o que é de outrem. Posso nem querer…
12/04/2009
PSSST!

Como diche?
Já não é a primeira vez que reparo neste fenómeno! A facilidade com que colocamos os sons de S/CH onde eles não são necessários, leva-me a concluir (as minhas conclusões são muito pouco científicas!) que sofremos de… ciciamento. Ciciamos. Se os nossos antepassados já ciciavam, se ciciaremos para sempre ou se cessaremos de ciciar, não faço ideia.
Não será sequer um defeito, nos casos (e semelhantes) que aqui apresento; creio que será mesmo um mau uso da língua. Vejamos alguns exemplos comuns: “prontos!” (como interjeição demonstrativa) em vez de “pronto!”, um abominável hábito; “salchicha” ou “chalchicha” ao invés de salsicha; “estou cá com uma dores de cabeça”, expressão onde a bota não bate mesmo com a perdigota em flexão de número. Outros haverá!
Mas o mais engraçado é que também fazemos o contrário: comemos sons sibilantes. Como se chama a quem cicia? Para além do popular “sopinha de massa”, claro! Desde pequena que me habituei a ouvir a expressão “cioso” ou “ciosa”. Está mal! Quem cicia é cicioso. E quem é invejoso ou zeloso é que será cioso. Se quem é cicioso é cioso do seu cicio, já será outra história. Porque, provavelmente, seria complicado dizer CI-CI-O-SO (tantos sons sibilantes!), deixou-se cair, na linguagem falada apenas, o primeiro CI… Pois claro, ainda por cima com uma palavrinha tão parecida logo ali à mão! Ciciar, mas como verbo transitivo, também significa segredar ou sibilar. Uma cicia é uma espécie de cotovia; e Cicia é uma ilha das Fiji. Acho que fiquei contaminada… Boach Páscoach!
Publicado no Açoriano Oriental a 12 de Abril 2009
08/04/2009
Blogging... boing...

06/04/2009
PSSST!

Muito se aprende no supermercado! Não só encontramos o melhor iogurte para o trânsito intestinal (informação já gentilmente cedida pela TV à hora das refeições, o que faz todo o sentido mas mesmo assim impressiona!) ou o melhor aloé para a roupa (receio que, qualquer dia, a minha roupa fale comigo e me diga, cara a cara, o que pensa de tanto detergente…), como também podemos escutar perguntas perfeitamente deliciosas. Outro dia, em grande aflição, uma senhora perguntava se vendiam aloquetes. Placidamente, a menina do caixa respondeu que não. Ainda mais placidamente, perguntei se sabia o que eram; e sabia. Não é fácil encontrar gente nova que saiba o que é um aloquete. Aliás, eu nem tinha a certeza de como se escrevia, pela distância que vai desde a última vez que vi essa palavra, tanto em papel, como no meu «scroll» mental (uma funcionalidade extremamente útil). Para mim, as palavras — para além do corpo das suas letras — possuem uma espécie de ficheiro biográfico que lhes confere personalidade.
E, dessa lembrança quase apagada, surgiram outras, algumas por sugestão de uma leitora (obrigada, Fátima). Aloquete, ou loquete, mais comum no Norte do país, significa fecho móvel, cadeado ou ferrolho, outra antiguidade. E coxim? O raro coxim? No dicionário, é uma espécie de sofá sem costas; cá, é almofada de sentar e não de deitar a cabeça. E a cruzeta, onde sempre pendurámos os casacos? A camionete… O ser-se chocalheiro… Sumir alguma coisa… Mas um dos meus preferidos é o uso de DISCRETO como sinónimo de esperto. É o suficiente para confundir qualquer um! Ou não… A verdade é que uma pessoa discreta (reservada) pouco revela, raramente correndo o risco de dizer o que não deve. Coisa rara, mais rara do que um coxim, hoje em dia!
02/04/2009
Dia Mundial do Livro Infantil
A Cidade dos Cogumelos
Chovia, chovia, chovia, chovia...
e há já três meses que não se via
uma nesga de sol no céu;
só, na paisagem, um chapéu
de nuvens de cenho fechado
e o próximo verão ameaçado
de nunca mais o vir a ser.
Realmente, até custa a crer!
Suspiravam as pessoas,
que mais pareciam canoas
à deriva, sem amarração,
e uma neblina no coração.
É, pois, neste amargo cenário,
que vamos encontrar um canário
de fofa plumagem amarela
que, por detrás de uma janela,
vê, distante, o mundo passar.
E a chuva, sem nunca parar!
Certo dia, como os outros, tal e qual,
repara em algo pouco normal:
vai um homem a saltitar,
uma senhora quase a adornar,
um menino, a pé coxinho,
e mais além um velhinho...
“Vai o mundo a coxear!”,
pensa o bicho, sem disfarçar
o espanto por tal caso.
E então, no chão raso,
sentam-se todos, mesmo molhados,
e dos pés tiram os sapatos
para revelarem “Que horror!”,
um visão de tremendo pavor:
é que de tanta humidade
(tanta, que afogava a cidade!)
tinha nascido, meio a medo,
um cogumelo entre cada dedo!
Um fungo, redondo e pardo,
entre os dedos bem plantado,
com uma facécia de espantar
que nem se podia acreditar!
Tudo isto o canário observou
do poleiro em que ficou,
com os olhos esbugalhados,
na casa de vidros molhados.
Devagar, muito a custo,
— pois não queria tal susto! —
as suas patas remirou
e nada de anormal achou:
“Nem sombras de cogumelos!
Os meus pés continuam belos.”
(Na verdade, seriam patinhas,
tão recurvas como gavinhas).
“Ah, ah, talvez seja uma condição
de quem não é bicho de estimação!”
O canário assim pensava
enquanto, contente, saltitava
no seu poleiro metalizado
na casa de rosto molhado...
sem perceber que a Natureza
em toda a sua cruel beleza,
se estava encarregando
de nas suas patas ir plantando
uns quantos lustrosos fungos,
como os outros, tão redondos.
Por isso, antes de falares
e dos outros mal pensares,
pode a má sorte em ti reparar
e nos teus pés também plantar
qualquer acrescento hediondo –
nos pés... ou não importa onde
pois o que aos outros se deseja
pode cair-nos em cheio na cabeça!
Maria das Mercês Pacheco


